quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Resumo de Vidas Secas


                Vidas Secas (1938) - Graciliano Ramos


Autor e obra

  Nasceu em Alagoas, em 1982, e teve 15 irmãos. Se envolveu, durante sua vida, com educação e política. 
  Com o golpe de 1930 ( Era Vargas), se afasta da política e começa a se dedicar mais a seus romances.
  Em 1933 volta como diretor da Instrução Pública e realiza uma grande reforma na educação de Alagoas, sendo preso por 3 anos, sendo acusado de se envolver com o comunismo.
  Após ser liberto passou a viver em uma pensão, no Rio de Janeiro. Para pagar a conta em tal pensão, Graciliano, ao atender um pedido de um amigo que desejava “umas histórias do Nordeste”, começa a escrever Vidas Secas. Cada capítulo, conforme ficava pronto, era vendido para ele conseguir se sustentar. Todo dia, antes de escrever algum capítulo de Vidas Secas, Graciliano fumava três maços de cigarro e bebia um pouco.
  Em 1945 se alia oficialmente ao Partido Comunista Brasileiro.Em 1951 se torna presidente da Associação Brasileira de Escritores. Morre em 1953 devido a um câncer.


Tempo e espaço

  O livro se passa no sertão nordestino, um lugar inóspito e monótono. A escassez das falas dos personagens ( que mal existe) se funde com a aridez do sertão. Era dificílimo encontrar um emprego, quem dirá uma boa remuneração. Fabiano vivia em um processo de semi-escravidão: trabalhava muito, ganhava pouco, além de ser roubado quando ia receber do patrão.
  Já o tempo em que a historia se desenvolve não é definido. A história de Fabiano e sua família sempre aconteceu no semi-árido nordestino.


Personagens

Fabiano: vaqueiro do sertão nordestino gostava do meio rural, é violentado por instituições sociais, sente-se diminuído e marginalizado, apresenta extraordinária capacidade de resistência, constitui um “herói” problemático, marcado pela contradição entre a revolta e a passividade, o que mais o atormenta é não ter o domínio da linguagem (mal falava), acredita em poderes sobrenaturais.

Sinha Vitória: mulher de Fabiano, era astuta. Seu maior sonho é ter uma cama, o que representa o alcance da consciência de cidadania, pela necessidade de sentir que vive uma vida autêntica, ocupada com os afazeres domésticos, para diminuir suas frustrações, nas horas de aflição costuma apelar para Deus e para Virgem Maria, personalidade mais dedicada, não tão tosca e primitiva como a do marido, é a âncora da família, demonstra possuir certa destreza mental, além de ser guerreira e forte.

Os meninos: eram dois, filhos de Fabiano e Sinhá Vitoria a ausência de nomes revela o processo de despersonalização a que foram submetidas pelas injustiças sociais, a miséria está relacionada com a ausência da fisionomia dos meninos. O menino mais novo, ingênuo, vê no pai um modelo a ser seguido, o mais velho, é inquieto e movido pela curiosidade.

Baleia: cachorra da família de Fabiano, era tratada como gente, uma espécie de irmã para os meninos, magra, vira-lata, os pontapés que recebe, deixam-na revoltada e, tal como os homens, “cogita” a possibilidade de fuga, durante o livro ela sofre um processo de “antropomorfização“.

Seu Tomás de Bolandeira: tido como exemplo de sabedoria, como um indivíduo alfabetizado, sábio, culto, porém falido. É um arquétipo em que as demais personagens se espelham, principalmente Fabiano.

Soldado Amarelo: simboliza o despotismo dos militares, o amarelo significa, no imaginário popular, o desespero, o ódio e a raiva, impõe-se com arrogância diante de Fabiano, prendendo-o.

Dono da fazenda: símbolo do poder econômico opressor representa o imobilismo de uma estrutura social que, aliada a outros elementos, acaba por determinar o nomadismo dos retirantes.

Fiscal da prefeitura: é um estágio menor das instituições sociais, figura que representa a intolerância da máquina governamental.


Análise da obra

- Vidas Secas é uma obra da Segunda Fase Modernista, inserida no ciclo do romance regionalista nordestino desenvolvido ao longo da década de 1930.

- É a obra que representa o grau máximo de depuração estilística pela concisão e pelos efeitos de sentido criados pelas manobras com a linguagem.

- O romance adquire uma dimensão épica, por problematizar as precárias condições de sobrevivência no sertão.

- Por trás dos acontecimentos, surge o tema da utopia de justiça social. A chama da esperança se sustenta na determinação com que os retirantes perseguem uma possibilidade concreta de participação social. O direito à cidadania é o anseio maior de cada personagem, cada um com suas particularidades.

- A estrutura do romance é aberta. Graciliano, no início do livro anuncia o anseio por um futuro melhor, registrando-a no futuro do pretérito (vestiriam, remoçaria, engrossariam, provocaria, renasceria), para afirmar o quanto eles sonham com essa possibilidade, mesmo sabendo dos imensos obstáculos que impediam sua concretização.

- O romance termina como começou, o que evidencia a circularidade que o compõe.

- As vidas se secam não só fisicamente, mas também a alma das personagens, considerando a dificuldade que sentem de estabelecer relacionamentos interpessoais.

- A linguagem rarefeita espelha a degradação do universo no qual os retirantes vivem. Nos poucos diálogos, se acumulam ruídos o que ocasiona a frustração do uso da linguagem. Até o papagaio, em seu curto tempo de vida, aprendeu apenas a imitar latidos.

- A desumanização das personagens e a humanização da cachorra Baleia é uma característica marcante do livro.

- Vidas Secas é um romance áspero, a sua poesia é densa, apontando para a urgência da reforma agrária no país.

- Os capítulos do livro são autônomos, ou seja, o leitor tem a liberdade de escolher qual quer ler primeiro.

- O foco narratico é em 3a pessoa, apresentando um aspecto inovador para esse foco de relato: a onisciência é prismática. Em Vidas Secas, o relato faz com que o leitor entre em contato direto com a realidade, enxergando-a pelo prisma da personagem que está em cena.

- No livro também há o emprego do discurso indireto livre, que dá ao narrador-observador um posicionamento discreto: sua "voz" quase se confunde com a das personagens.

- Apesar de a cronologia não estar explícita, cenas autônomas ("Mudança", "Inverno", "Fuga") deixam transparecer algumas ordenações temporais mais concretas que outras.

- A paisagem natural é tão hostil que é possível falar da existência de um contra-espaço: o sertão nordestino se torna o principal responsável pela expulsão dos sertanejos.

- Há a presença quase absoluta de um monólogo interior, por não existirem praticamente diálogos.


Síntese

  O livro se inicia com Fabiano, sua esposa Sinhá Vitória, seus dois filhos e a cachorra Baleia andando no sertão. Eles já caminhavam há alguns dias sem um destino. No dia anterior, eles haviam matado o papagaio, pois estavam com muita fome.
  Avistavam juazeiros, era uma fazenda abandonada. A cachorra Baleia caçou um preá, o que animou toda a família. Fabiano e Sinhá Vitória estavam esperançosos, pois uma grande nuvem se formava no céu: iria chover. Fabiano pensava que finalmente teria chance de recomeçar, de se tornar o fazendeiro daquele lugar abandonado.
  A chuva chegou e o fazendeiro também, o que desconcertou Fabiano. Ele implorou para ficar e o fazendeiro aceitou, lhe dando alguns materiais, como botas.
  O fazendeiro vinhas às vezes e sempre reclamava grosseiramente dos serviços de Fabiano, apesar de estar tudo em ordem e do gado estar crescendo. Fabiano sabia que quando a seca retornasse, ele seria despedido, pois não haveria maneiras de manter o gado.
  O patrão era autoritário, sem-educação e o enganava na hora de pagar. Durante esses dias de trabalho, Fabiano chegou a pensar que era um homem, mas depois se corrigiu dizendo que era um bicho. “Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades”.
  Fabiano acreditava que seus filhos tinham que ser igual a ele, trabalhar em uma fazenda e não igual ao Seu Tomás da Bolandeira, que possuía um monte de livros e que estava em uma situação ruim.
  Um dia Fabiano foi até a cidade para comprar umas coisas. Entrou em um bar e bebeu apenas um copo de cachaça. Após isso, um soldado amarelo o chamou (sendo mais uma ordem do que um pedido) para jogar baralho com apostas em dinheiro. Fabiano perdeu o pouco do dinheiro que lhe restava e foi embora, sem se despedir do soldado amarelo. Já estava na rua quando o tal soldado o perseguiu. Fabiano, após receber um pisa no pé, xingou a mãe do soldado, sendo preso.
  Quando chegou à prisão foi espancado. Não conseguia entender porque aquilo tinha acontecido. Não conseguia se explicar para o delegado, mal sabia falar. Não acreditava que o soldado amarelo fez tudo aquilo com ele só porque ele não se despediu. Pensava em Sinhá Vitória e nos meninos, que já deviam estar preocupados com sua demora. Os meninos provavelmente seriam como ele quando crescerem: brutos, e seriam “pisados” por soldados amarelos sem chance de se defender. Não se diz no livro, mas se deduz que Fabiano logo foi solto.
  Em um dia na fazenda, Sinhá Vitória, já exausta doas afazeres domésticos, discutiu com Fabiano, pois queria uma cama decente, como a de São Tomás de Bolandeira e não uma de palha. Ela se queixou do dinheiro que ele gastava bebendo e jogando e ele se queixou dos sapatos caros que Sinha Vitória usava em festas, dizendo que ela andava como um papagaio, o que a machucou muito (além da humilhação, ela se lembrou do papagaio que tiveram que matar). Para aumentar a raiva e a angústia de Sinhá Vitória, uma raposa comeu sua galinha mais gorda.
  Certa vez, o menino mais novo ficou admirando seu pai, Fabiano, enquanto domava uma égua na fazenda. Ele teimou que tinha que fazer algo parecido para impressionar sua família. Foi tentar se aproximar de Fabiano, Sinha Vitória, de seu irmão e da Baleia e todos os ignoraram. No dia seguinte, montou em um bode para impressionar seu irmão e caiu provocando risos e reprovação aos expectadores, sentindo-se humilhado.
  O menino mais velho havia ouvido de uma senhora que curou a espinha de seu pai (conhecida com Sinha Terta) a palavra “inferno”. Se encheu de curiosidade, queria aprender o que “inferno” significava e se gabar para o irmão. Foi perguntar para Sinha Vitória que respondeu que era apenas um lugar ruim. Não satisfeito com a resposta, recebeu um cascudo. Foi chorar perto de uma árvore, indignado com a atitude da mãe. Apesar dela ter lhe falado que “inferno” era um lugar ruim, para ele era uma palavra tão bonita. Baleia veio consolá-lo. Depois de se recuperar, tentou explicar a ela o que Sinha Vitória tinha feito, com um vocabulário tão escasso quanyo o do papagaio que eles haviam comido para sobreviver.
  Já estava anoitecendo e o menino mais velho estava receoso de entrar em casa. Queria esquecer que havia levado um cascudo por uma simples pergunta. Abraçou Baleia, a qual odiava ser apertada (preferia pular), mas que se encolheu para não decepcionar o menino mais velho. Ela imaginava o osso que poderia ganhar de Sinha Vitória.
  O inverno chegou. Passavam-se dias e noites seguidas chovendo. A família se juntava em volta da fogueira tentando se aquecer, aquele era o período do ano em que havia mais “fartura”.
  Pela primeira vez, Graciliano Ramos fala dos sentimentos de Fabiano em relação ao soldado amarelo. Logo quando saiu da prisão, pensou em matar o tal soldado, o delegado e o juiz, caso a seca chegasse. Mas agora chovia e o rio subia a ladeira. Uma possível enchente preocupava Sinha Vitória. E se a água chegasse até a casa? Eles teriam que subir o morro e permanecer lá por alguns dias.
  Fabiano e sua família, inclusive Baleia, foram para uma festa de natal na cidade. A caminhada era longa, aproximadamente 3 km. Fabiano ia com roupas apertadas feitas por Sinha Vitória, com uma bota de vaqueiro e ela ia com um vestido vermelho e um salto alto (que a desequilibrava) e os meninos com roupas feitas por Sinhá Terta. Fabiano tentava não perceber essa desvantagem.
  Durante a caminhada, eles tiraram os sapatos, chegando na cidade com os pés embarreados. Lá acharam uma bica, se limparam e colocaram os sapatos novamente.
  A festa já havia começado e eles estavam no meio da multidão. Fabiano se sentia inferior e sentia raiva, achava que todas as aquelas pessoas eram parecidas com o soldado amarelo. Com o pouco de dinheiro que tinha comprou cachaça. Embriagado, quis “arrumar briga” com as pessoas. Xingava, provocava e por sorte ninguém ouviu. Se o soldado amarelo aparecesse ali, Fabiano bateria nele.
  Cansado e bêbado, tirou o sapato apertado, o colarinho e a camisa, enrolou, e a fez de travesseiro. Acabou por adormecer numa calçada. Sinha Vitória, extremamente apertada para xixi, urinou em uma calçada próxima.
  Os meninos estavam surpresos com a quantidade de pessoas, com as barracas, as lojas, as luzes. Não conseguiam acreditar que tudo aquilo tinha nome, era impossível aquelas pessoas da cidade saber todos os nome. Baleia queria ir embora, havia muitas pessoas diferentes, muitos odores diferentes.
  Passado um tempo, Baleia adoeceu. Estava magra, com diversas partes do corpo sem pelos. “Estava para morrer.” Fabiano decidiu matá-la com uma espingarda, preparando-a bem para Baleia não sofrer muito. Ele também sentia dó, mas acreditava que a doença de Baleia não tinha mais cura.
  Sinha Vitória pegou os dois meninos e os enfiou no quarto, tampando-lhes os ouvidos. Os meninos perceberam o que ia acontecer e relutaram muito, afinal Baleia era um membro da família.
  Fabiano atirou em Baleia e inutilizou uma de suas pernas traseiras. A cachorra fugiu sem entender o motivo do dono de ter feito aquilo. Sentia vontade de morder Fabiano, mas como poderia fazer isso? Ele era o seu dono, ela jamais poderia fazer isso com ele. Adormeceu com a dor. Acordou quando já era a noite, sem entender onde estava e o que havia acontecido. Pensando em preás, em um Fabiano gigante, nos dois meninos, em um lugar lindo, adormeceu novamente, desta vez para sempre.
  Fabiano foi receber sua parte do gado que cuidará do patrão na cidade. Sinha Vitória havia contado o quanto ele precisava receber, usando várias sementes. Apesar de ter poucos conhecimentos, era ela quem calculava as despesas da casa. Mas chegando lá, o patrão lhe pagou um valor muito menor daquele que lhe era por direito. Fabiano contestou e o patrão, bravo, disse para ele arranjar emprego em outro lugar. Fabiano se acalmou, afinal, ele não tinha outro lugar para trabalhar.
  Fabiano saiu indignado. Ele não tinha onde cair morto, senão acusaria o patrão de ladrão e iria trabalhar em outra fazenda. Repensou, era impossível, ele mal sabia se expressar para conseguir outro emprego. Sentia raiva, quis beber, mas se lembrou que da última vez que o fez o soldado amarelo o prendeu. Por final, comparou, em sua mente, o patrão com o governo, especialmente porque o patrão usava, como o governo, uma linguagem que estava além de seu entendimento
  Já havia se passado um ano desde a prisão de Fabiano quando este estava na Caatinga procurando uma égua e sua cria, quando encontrou o soldado amarelo.
  Primeiramente, Fabiano colocou o facão no rosto dele, mas vacilou. Depois de muitos pensamentos invadirem sua cabeça, tornando-o cada vez mais indeciso em se vingar ou não do soldado amarelo, ele achou melhor deixá-lo prosseguir e lhe ensinou o caminho, afinal pensou: “governo é governo”.
  A seca “apertava”, os poços secaram. Um bando numeroso de aves vinha beber água no poço. Sinhá Vitória disse que o gado ia morrer por causa das aves. Fabiano demorou a entender que o gado ia morrer por que não ia ter mais água para beber (as aves iam beber tudo). Achava que Sinhá Vitória quis dizer que as aves matariam e comeriam o gado. Admirou sua esposa pelo “complexo pensamento”.
  Pegou a espingarda e foi atirar nas aves (era a comida da semana). A espingarda o fez lembrar-se de Baleia, sentia dó da cachorrinha. No caminho até o poço se arrependeu de não ter assassinado o soldado amarelo: mesmo se fosse preso, se tornaria um homem. Se arrependeu também de não ter se tornado um cangaceiro. Era um covarde, era um bicho, não merecia respeito (seus pensamentos).
  Matou uma série de aves. Sentia raiva, queria matar o soldado amarelo e seus superiores, sentia raiva do patrão, sentia raiva de ter matado Baleia. Pegou os corpos das aves, necessitava fugir dali, da seca, das lembranças de Baleia (não sabia se foi certo tê-la matado), do patrão que o roubava.
  A seca havia chegado e eles decidiram partir. Mataram um bezerro, salgaram a carne e começaram a caminhada. Não sabiam para onde ir, andaram para o sul. Na caminhada, Fabiano e Sinha Vitória “conversavam” (pouquíssimas palavras), um tentando dar esperança ao outro. No meio do dia, pararam em uma sombra.
  Fabiano viu uma depressão e achou que ali tinha um poço. Não sabia ao certo, mas precisava acreditar. Começou a pensar no cavalo que tinha abandonado na fazenda, não podia levá-lo, era do patrão. Ia morrer, magro com os urubus comendo seus olhos. Esse pensamento o incomodou, voltaram a andar, desta vez em direção ao poço.
  Assim termina o livro, semelhante ao começo, dando a ideia de um ciclo: eles iriam para outro lugar e iam ser enganados. A seca, após um tempo, chegaria, e eles partiriam novamente.

Texto de Graziella Toffolo Luiz

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas


                 Resumo de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881)


Autor e obra

  Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro e era filho de um mulato, gago e epilético. Ele se tornou o mais importante escritor brasileiro. Teve uma infância pobre, embora não desprotegida. Depois, o “o salto” para o centro da cidade (morava no subúrbio): a prematura militância cultural e jornalística,  as noções do liberalismo e a entrada para o funcionarismo público.
  Machado soube crescer numa sociedade que lhe era hostil. Desde menino, sonhava ser alguém na esfera da língua portuguesa. Contava, para isso, com rara observação e grande faro para a critica. O jornalismo lhe deu a prática do texto, o gosto pelo simples, a fuga á frase tradicional. Machado queria escrever para todos, compondo obras, romances, contos, teatros, crônicas, criticas, dentre outros.
  Conforme sua vida foi passando Machado se tornou elitista? Dizem que tinha vergonha da madrastra, que não se importava com os negros, que fora “embranquecendo” aos poucos, etc. Teve uma vida recatada e caseira, casou-se, foi nomeado para diferentes cargos (com destaque a Presidência da Academia Brasileira de Letras). Morreu em 1908.


Características

- Obra realista.

- A crítica implícita do livro é a “constatação” de um cenário contraditório da vida. Há no livro dois tipos de relação humana ( que são opostas) : a relação fingida, são prazerosas e constituídas por ascensão, poder e gozo e a relação verídica, são dolorosas e constituídas por acontecimentos que a natureza, o tempo ou o acaso impõe.

- Narrador-personagem, onisciente. É um defunto-autor que “regula” ou “censura” o que vai transmitir;  valorizando suas análises, suas conclusões em detrimento do real.

- O tempo é uma das estruturas centrais, estando ele fora de nós e até mesmo contra nós.

- Há no livro personagens felizardos, mas não felizes. Ninguém consegue ser sincero ou verdadeiro.

- Para Brás, as certezas absolutas são tolas.

- A maior parte dos realistas julgara a vida humana por princípio fracassada, o que não ocorre em Memórias Póstumas de Brás Cubas.

- Há no livro um pessimismo; uma insistência na dor, no fracasso, na implacável passagem do tempo.

- Universalidade

- É uma historia de amor adulterino, sem idéia de pecado. Quanto a sensualidade, Machado prefere sugerir, não declarar.

- Quem erra, paga, e quem não erra também paga. Portanto, a dose de sofrimento não é proporcional á dose de erros cometidos.

- Em algumas partes o autor usa a “ausência capítulos em branco de palavras” para expressar com mais precisão o que se quer dizer.

- O livro inaugurou o realismo no Brasil.

- Não há nenhum compromisso com o leitor, ao contrário do que ocorre em “Dom Casmurro, em quem o narrador precisa convencer o leitor, precisa de sua aceitação.

- Metalinguagem: Machado convida o leitor a refletir sobre a estrutura da obra e perceber dois níveis de leitura: a que revela diretamente o personagem e a que faz o objeto de critica do autor.

- Várias vezes é citado livros, frases, acontecimentos históricos (intextualidade).

- Digressão : “vai e volta” no tempo.

- Ironia, no livro, é um recurso para fazer o leitor desconfiar das declarações de Brás.

- O gênero narrativo do livro chama-se sátira menipéia. O principal desse gênero é que ele mistura as crenças mais contrárias e vira de cabeça para baixo as crenças mais notáveis de uma época.


Tempo e espaço

A sociedade são as classes altas da vida carioca. A época vai do primeiro ao último reinado. Gravitam em torno da elite a classe média e alguns da classe baixa. Machado mostra esses contrastes.
A sustentação do país era agrária, com ênfase na exportação de matéria-prima e na importação de manufaturados. Nossas elites eram precárias, utilizando muito a cultura européia e o autor mostra essa máscara.


Personagens

Brás Cubas- filho abastado da família Cubas, é o defunto autor, contado suas memórias após sua morte. Era um burguês arrogante e entediado, muito apegado ao dinheiro. Sempre foi incapaz decidir sua própria vida, sendo a única oportunidade em que tomou uma posição firme foi durante a partilha dos bens de seu pai. Se mostra, diante de alguns acontecimentos em sua vida mesquinho, vingativo e preconceituoso.

Venância- sobrinha de Brás.

Virgília- era formosa, apegada ao dinheiro e ao “status”, foi o grande amor de Brás.

Nhonhô- único filho de Virgília e Lobo Neves.

Ildefonso- tio de Brás, cônego, puro e severo. Possuía um espírito medíocre.

João- tio de Brás, militar, vida galante e “língua solta” (falava besteiras).

D. Emerenciana- tia materna de Brás, era quem possuía mais autoridade sobre ele (durante sua infância).

Dr. Vilaça- glosador (poeta), cabelos grandes, era admirado (e até invejado).

Quincas Borba- durante o livro passa por profundas transformações. Autor da teoria do Humanitismo. Era colega de sala de Brás, nessa época inventivo e travesso.

Marcela- foi em quem Brás deu o primeiro beijo, sua paixão adolescente.Luxuosa, inescrupulosa, impaciente, movida por dinheiro e espanhola.

Sabina- irmã de Brás

Cotrim- marido de Sabina, honesto, trabalhador, avaro, se envolvia com o tráfico negreiro.

Sara- filha de Sabina e Cotrim, morre no decorrer do livro.

D. Eusébia- possuía um caso com Dr. Vilaça desde quando Brás era menino.

Conselheiro Dutra- pai de Virgília, possuía influência política.Risonho, jovial e patriota.

Eugênia- fruto do caso de Dr. Vilaça e D. Eusélia (chamada por Brás de “filha da moita”, já que quando criança flagrou os dois se beijando atrás de uma moita). Era morena e bonita, porém coxa (fato bem retratado no livro).

Lobo Neves- marido de Virgília, era ambicioso e possuía uma carreira política sólida.

Luís Dutra- primo de Virgília, escrevia versos. Desconfiava do romance de sua prima e Brás.

Baronesa X- bonita, elegante e fina. Desconfiava do romance de Virgília e Brás.

Viegas- idoso, avaro, muito doente e rico. Parente de Virgília, desconfiava do romance dela com Brás.

D. Plácida- dona-de-casa, teve uma vida de muito trabalho e sofrimento (pobreza). Cuidava da “casinha” de Brás e Virgília.

Damasceno- casado com a irmã de Cotrim, se fingia de rico, revolucionário e patriota: um poço de aparências e de frustrações escondidas.

D. Eulália (ou Nhá Loló)- filha de Damasceno, era graciosa, possuía uma voz mimosa, gostava de óperas e cantava.

Prudêncio- escravo de infância de Brás, ganha mais tarde sua alforria.


Síntese

  Escrito em 1° pessoa, Brás decide, já morto, no além, começar a contar sua historia pelo fim. "Não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor”.
  Brás morrera aos 64 anos, menos por pneumonia e mais por uma “ideia fixa” (criação de um emplasto): fracassa na invenção do emplasto, com que curaria a humanidade e ficaria célebre ( e famoso, seu principal objetivo). Em seu enterro compareceu 10 pessoas.
  O nome Cubas vinha de tanoeiros, profissão nada aristocrática.O defunto conta que seu pai tentava maquilar essa origem.
  Virgília, dias antes de sua morte, veio visitá-lo. Ele estava de cama e ela sentou-se ao seu lado, contando as notícias da cidade. Ele pediu que ela ficasse e dois dias depois ela veio com o seu filho.
  Ele começou a delirar, foi uma espécie de um sonho (logo no início desse capítulo que conta o sonho o narrador avisa que ele é totalmente desnecessário para a compreensão do livro, e que ele poderia ser pulado). Nesse sonho surgiu Pandora, gigantesca mulher, que representava a força, a natureza. Ela era uma visão alegórica da história humana, uma vez que a história era central na cultura do século passado. Brás diz que a razão voltou ao seu cérebro e com esforço fez a loucura ir embora. Logo ele morreu.
  Brás nasceu em 20 de outubro de 1805. Com 5 anos ganhou a fama de “menino diabo”. Cheio de travessuras (montava em seu escravo, Prudêncio) e mal educado possuía um gênio indócil. Seu pai o mimava (e o adorava) enquanto sua mãe (de pouco cérebro e muito coração) o fazia decorar rezas e pedir perdão pelas suas travessuras.
  Seu tio João não respeitava a batina de seu próprio irmão Idelfonso nem a adolescência de Brás (falava-lhe sobre sexo). Já Idelfonso possuía um espírito medíocre, uma vez que não via a parte substancial da Igreja e sim a hierarquia. Contudo, era puro e severo.
  A família de Brás dividia-se entre os que adoravam e os que detestavam Napoleão. Quando Napoleão “caiu”, uma parte da família resolveu dar um jantar comemorando sua destituição (o jantar era o desejo de ostentação, de se comparar as elites europeias  o que era ridículo, uma vez que as elites brasileiras possuíam escravos e o Brasil era exportador e dependente).
  Nesse jantar D. Villa glosava (montava versos) sendo o centro das atenções. Todos estavam gostando, menos Brás, que queria comer a sobremesa (ainda era um menino). Começou a espernear até D. Emerenciana pedir a uma escrava que o retirasse da mesa.
  Dr. Villa aproveitou o acontecido e glosou sobre a exclusão de Brás, que decidiu se vingar. Mais tarde, quando todos andavam pela chácara, o menino seguiu Dr. Villa e viu ele atrás de uma moita beijando D. Eusébia. Como vingança, saiu gritando o acontecimento a todos: “O Doutor Vilaça deu um beijo em Dona Eusébia!”.
  A escola foi “comum”. Brás afirmou que só aprendeu devido aos castigos da palmatória. Um de seus colegas era Quincas Borba, muito travesso e inteligente.
  Brás, com 17 anos, se apaixonou por Marcela. Em uma festa na casa dela ele a beijou. Houve dois períodos em seu amor: um foi a disputa com outro moço, Xavier e outro foi de Marcela só para Brás.
  Brás gastava muito com ela (presentes), dos quais muitos eram jóias. Seu pai descobriu que ele devia 11 contos de réis, se enfureceu e avisou-lhe que ele iria estudar em Coimbra (Lisboa) para se distanciar da moça.
  O adolescente contou a Marcela sobre a “crise” e pediu que ela viajasse junto com ele. Ela não quis ir até quando ele lhe deu um pente de diamantes. Com o luxuoso presente Marcela aceitou seu pedido.
  Saindo da casa da amada Brás foi pego por seu pai que o enviou para Lisboa. Marcela, contudo, não foi ao cais: a luxuosa adolescente o enganou. ”Marcela amou-me durante 15 meses e 11 contos de réis”.
  Brás iniciou a viagem muito triste e deprimente (pensava em se matar), devido ao abandono de Marcela. O chefe do navio era um capitão-poeta (durante a viagem leu seus versos para Brás), com sua esposa enferma, que morreu durante a viagem e foi jogada ao mar. Terminou a viagem bem, resolveu esquecer Marcela e como o capitão-poeta disse ele tinha “ um grande futuro!”.
  A viagem é a “ligação” entre dois mundos, dois estados, dois momentos de vida: terminava a adolescência, começava a mocidade. Logo pode-se dizer que essa passagem é uma “ilha” no livro.
  Brás se formou e guardou o diploma, pois ao mesmo tempo que esse lhe dava liberdade também dava responsabilidade, e foi viajar pela Europa.
  Em uma dessas viagens seu cavalo ficou estressado e disparou, quando um almocreve (homem que se ocupa em conduzir bestas de carga) ajudou-o. Era um homem simples, mal-vestido, mas de um coração enorme, o qual o acompanhou em uma parte da vigem.
  De principio Brás pensou em retribuir o favor que o almocreve fez dando-lhe três moedas de ouro, depois uma, depois somente uma de prata. Deu-lhe a de prata, mas depois se arrependeu e achou que tinha que ter lhe dado apenas uma de bronze. Isso mostra o quanto Brás era mesquinho.
  Brás recebeu uma carta de seu pai o qual pediu que ele voltasse, pois sua mãe estava muito doente. Ele voltou e se sentiu renovado por entrar novamente em sua “terra”. Sua mãe realmente estava mal e logo morreu. A morte de um entre próximo lhe pareceu estranha e obscura.
  Brás recusou o convite da irmã e do cunhado para morar com eles e foi para uma antiga propriedade de sua família, junto com Prudêncio. Durante alguns dias ele se manteve solitário, pensado no ocorrido. Ele disse que quando sua mãe morreu nasceu nele uma flor hipocondria (tristeza profunda; melancolia).
  Prudêncio avisou-lhe que D. Eusébia mudou para uma casa vizinha. A mulher teve uma filha chamada Eugênia com Dr. Vilaça. Ele a chamava de “flor da moita” e ela já era uma adolescente. Brás decidiu visitá-las e depois voltar a morar na cidade.
  Seu pai veio visitá-lo e disse que um regente havia mandado uma carta de pêsames e que ele deveria ir agradecer (para assim obter um cargo político). Disse também que ele precisava se casar com uma moça chamada Virgília.
  Brás fez um capítulo para falar que era a mesma Virgília que veio visitá-lo em seus últimos dias. Nessa época ela tinha 16 anos, era bonita, fresca, ignorante e pueril.
  Inicialmente Brás disse que ou aceitava casar ou entrar na carreira política. Seu pai lhe disse que poderia ser, desde que ele fosse feliz. Com tais palavras a “flor de hipocondria” voltou a ser botão e deixou outra flor brotar, ”o amor da nomeada”, a mesma do emplasto Brás Cubas. Assim ele aceitou os dois pedidos do pai, que satisfeito foi embora.
  Brás entrou no quarto e viu uma borboleta preta pousada no retrato do seu pai. Aquilo o incomodou (associou a cor preta da borboleta com um possível acontecimento ruim com seu pai) e ele bateu na borboleta,matando-a. Foi visitar D. Eusébia.
  Conheceu Eugênia que já tinha 16 anos. Achou-a bonita. No dia seguinte ele foi jantar na casa delas, por insistência de D. Eusébia. Quando estavam andando pela chácara percebeu que Eugênia mancava, perguntou se ela havia se machucado e ela respondeu que era coxa. Ele se sentiu grosseiro.
  Brás deixou-se ficar pelo resto da semana. Ele se excitava com Eugênia, porém, ela era coxa. Depois de dias juntos, aconteceu o 1° beijo, o que fez Brás lembrar do beijos de D. Eusébia e Vilaça. Tempos depois Brás decidiu ir embora antes que se apaixonasse mais por Eugênia, afinal, ela era coxa. Eugênia reagiu mal, pois, ela percebeu o motivo que seu amado a deixava.
  No romance Brás compara Eugênia a borboleta preta. Ele (como já havia pensado) não mataria a borboleta se ela fosse azul. Ele também não deixaria Eugênia se ela não fosse coxa (manca). Esse é um exemplo de digressão. A borboleta representava Eugênia, por isso pousou no quadro do pai de Brás. Se Brás a aceitasse (mesmo sendo coxa), iria atrapalhar os planos de seu pai.
  Brás voltou a cidade e conheceu Virgília e o Conselheiro Dutra. Virgília era como seu pai havia descrito e eles se deram bem.
  Brás estava indo para o seu primeiro discurso na câmara dos deputados quando seu relógio quebrou. Entrou em uma relojoaria e se deparou com Marcela, feia, com uma aparência velha, arrependida. Ela contou-lhe de sua vida: havia se tornado viúva e o que restará era a relojoaria, a qual não era muito frequentada.
  Apesar de tudo, a espanhola ainda era ambiciosa. Seu relógio ficou pronto e ele se foi, chegando atrasado em seu compromisso. Virgília se chateou com o atraso.
  De repente surgiu Lobo Neves, que não era mais bonito que Brás. Em poucas semanas ele “roubou” Virgília e o cargo político que ele almejava na câmara de deputados. Brás não se abalou muito. Virgília casou-se porque Lobo Neves prometeu fazer dela uma marquesa.
  Relatando o término do namoro, Brás escreveu no livro: “O lábio do homem não é como a pata do cavalo de Átila, que esterilizava o solo em que batia; é justamente o contrário”. Tal frase sugere que o futuro filho de Virgília, Nhonhô, podia ser de Brás, lembrando que essa temática também ocorre em Dom Casmurro.
  O pai de Brás não aguentou ver seu filho perder a carreira política e o casamento. Dentro de 4 meses morreu, não conformado por não ter conseguido deixar Brás em uma “posição melhor”.
  Houve uma briga para dividir a herança entre Brás, Sabina e Cotrim. Foi a primeira briga dos irmãos. Sem Virgília e brigado com Sabina e Cotrim, Brás passou anos em solidão, escrevendo política e literatura para os jornais.
  Arranjou um “companheiro”, o Luís Dutra, que também escrevia. Seus versos eram mais valiosos que os de Brás. Porém, ele sempre ia na casa de Brás pois era inseguro e queria a opinião dele sobre seus novos versos. Brás falava de tudo, menos do que achou dos versos, justamente para desanimá-lo e destruí-lo.
  Em uma dessas visitas Luís comentou com Brás que Virgília e Lobo Neves (já era deputado) haviam voltado pra o RJ com um filho, Nhonhô.
  Foi em um baile o reencontro de Brás e Virgília. Eles valsaram juntos e a cada baile se aproximavam mais. Brás se encantava com ela e passou a sentir que possuí-a.
  Em uma dessas noites de baile, voltando para casa, Brás achou uma moeda de ouro. Mandou uma carta a polícia pedindo que achassem o dono. Tal acontecimento se espalhou pela cidade.
  Um dia, caminhando pela praia, Brás achou um embrulho com 5 contos de réis. Ao invés de devolver, ele pegou o dinheiro para ele e foi depositá-lo no Banco do Brasil. No banco, todos elogiaram-no por ter devolvido a moeda de ouro, o que é irônico, pois o dinheiro do embrulho (que tinha um valor muito mais alto) Brás não devolveu.
  Em uma noite Brás e Virgília se beijaram e a partir daí o romance fluiu. Só agora Brás percebeu que antes de surgir Lobo Neves, em seu namoro, ele amava Virgília. Na época, amava só, sem saber que amava. Só agora ambos entenderam que se amavam.
  Um dia Lobo Neves desabafou com Brás, dizendo que estava “chateado” com sua vida, que a política era suja. Depois pediu segredo e sentiu que não devia ter desabafado.Logo depois, andando na rua, Brás avistou seu ex-colega, que hoje era ministro e isso fez Brás querer ser também.
  Mais a frente surgiu um mendigo que o reconheceu. Era Quincas Borba, o amigo de infância, agora maltrapilho e pensador do Humanitismo (ou Borbismo). Brás se abalou com a situação dele, lhe deu dinheiro e ofereceu-lhe um emprego.
  Quincas aceitou com muita felicidade o dinheiro, conquanto recusou o emprego. Abraçou Brás e se foi. Quincas, no abraço, havia roubado seu relógio.
  Dias depois foi ver Virgília e a encontrou triste. Ela achava que Lobo estava desconfiando de sua traição e tinha medo de ele matá-la. Brás propôs que eles fugissem, porém Virgília assustou-se e não disse nada. Lobo Neves chegou e Brás jantou com eles. Dentro de Brás iniciou-se uma raiva de Virgília e ainda mais de Lobo. Foi embora.
  No dia seguinte foi vê-la e encontrou-a arrasada pelo modo com que ele a tinha tratado no jantar (com frieza). Brás disse que o amor tinha acabado e houve uma discussão, porém logo pediram desculpas e se preocuparam se alguém não havia ouvido a briga. Chegou a Baronesa X e Brás foi embora.
  Brás Cubas recebeu um bilhete de Virgília, o qual dizia que a Baronesa X lhe contou que muitas pessoas estavam comentando da suposta relação deles.
  Escondido, Brás foi conversar com Virgília. Ela não ia fugir, pois amava Brás tanto quanto sua aparência pública. Resolveram então arranjar uma casa discreta, um ninho de amor. Surge uma casinha na Gamboa. Plácida,a antiga servidora de Virgília, vai lá residir, para manter as aparências.
  Brás encontrou na praça Prudêncio, seu ex-escravo batendo no escravo no escravo dele, que era um bêbado. Brás reprovou tal atitude e pediu que Prudêncio o perdoasse. O intrigante é que Prudêncio, agora livre, decidiu ter escravo. Onde fica a triste experiência do escravismo? O narrador conclui que Prudêncio era assim porque sua liberdade foi dada (e não conquistada).
  Para que D. Plácida mantivesse em segredo o romance proibido, Brás lhe pagou uma quantia altíssima. D. Plácida perdeu os pais cedo, casou-se, teve uma filha que fugiu com um homem, se tornou viúva. Teve uma vida difícil e sofrida até encontrar Virgília.
  Neves foi convidado para uma presidência de província, no Norte. Os amantes temeram a iminente separação. Brás foi convidado por Lobo para ser seu secretário em seu novo cargo e ele aceitou.
  Sabina ,Cotrim e Sara foram visitar Brás. Finalmente fizeram as pazes. O casal deixou claro que não gostavam muito da ideia de Brás ir para o norte.
  No dia seguinte Brás começou a “divulgar” que iria ser secretário de Lobo e mudar-se. As pessoas olhavam com desconfiança, riam com malícia. Enfim, o caso já era público. Cotrim disse-lhe que ir para o norte com Lobo e Virgília era muito arriscado.
  Na casinha na Gamboia Brás foi encontrar a amada. Ele contou a ela que estava pensando em desistir de ir para o norte. Ela riu e contou-lhe que não era mais necessário preocupar-se, pois a nomeação de Lobo Neves saiu no jornal justo no dia 13 e ele tinha bronca desse número.
  O pai de Lobo “morreu no dia 13, 13 dias depois de um jantar em que havia 13 pessoas.A casa em que morrera a mãe tinha o n° 13.” A superstição transforma Neves num palhaço.
  A quase separação fez Brás e Virgília se amarem com mais ardor. Esse foi o ponto mais alto do romance.
  Viegas morreu em uma tarde em que Brás e Virgília foi visitá-lo, discutindo com um comprador que queria comprar sua casa por menos de 40 contos de réis. Além de “mão-de-vaca” era muito doente. Virgília sempre o tratou muito bem, com o interesse em que ele deixasse uma parte da sua herança ao seu filho, o que não aconteceu.
  Virgília estava grávida, supostamente de Brás, que passava horas conversando com o embrião, imaginando-o de todas as formas: bebê,adolescente,adulto,mas em todas elas ele era um homem,e nunca uma mulher.
  Brás recebeu uma carta de Quinca Borba junto com um relógio parecido com aquele que ele roubou (inclusive marcado com as iniciais de Brás). Somente pelo fato de ter devolvido o relógio, percebe-se que suas condições de vida estavam melhores.
  Damasceno veio entregar a Brás um convite de Cotrim para que ele fosse jantar lá, e Brás ficou encantado com a pessoa e as histórias de Damasceno (o que não passava de aparências).
   Após o jantar Sabina perguntou o que Brás achou de D. Eulália (filha de Damasceno), afirmando que ele tinha que casar com ela, querendo ou não, pois já estava muito velho (por volta de 50 anos).
  Brás foi visitar Virgília e Lobo Neves estava lá. Ele reparou que quando perguntava da gravidez Virgília se acanhava. Era que ela tinha medo (pois no primeiro parto, de Nhonhô, ela quase morreu) e tinha vexame de estar grávida, já que isso iria privá-la de ir em certos lugares.
  Virgília perdeu o bebê e Lobo e Brás se abalaram também. Lobo recebeu uma carta anônima que denunciava o envolvimento de Brás e Virgília. A partir disso Lobo começou a tratar Brás friamente.
  Brás não entendia o motivo do afastamento e um dia foi visitar Virgília e sem querer ouviu Lobo conversando com Virgília sobre a carta anônima (ele esperou ela se restabelecer do aborto).
  Brás se chateou com a reação da amada que reagiu com tranqüilidade moral e sem nenhuma comoção, apenas dizendo que era uma calúnia infame.
  O casal se encontrou na casinha em Gamboia, onde Virgília disse que Brás não merecia os sacrifícios que ela lhe fazia passar. Ele silenciou e foi dar-lhe um beijo na testa e ela recuou. Entre a boca e a testa poderia haver ressentimento,desconfiança e/ou saciedade.
  Brás foi ao teatro e ele e D. Eulália se atraíram. Encontrou Lobo Neves, o qual voltou a lhe tratar como antes.
  O casal mais uma vez foi se encontrar em Gamboia quando Lobo Neves apareceu. Brás se escondeu num armário e D. Plácida contou a Lobo que Virgília veio visitá-la. Logo Neves e a Virgília se foram.
  Brás se preocupou com o que poderia acontecer a ela. Pensou que era melhor ele se casar logo com D. Eulália e acabar com esse jogo perigoso. Assim que pode Virgília mandou-lhe um bilhete dizendo que Lobo estava desconfiado e que precisavam tomar mais cautela. O bilhete não demonstrava emoções.
  No mesmo dia Brás recebeu a visita de Quincas Borba, que enriqueceu depois de ter recebido a herança de um tio. Não apresentou sua teoria (Humanitismo) porque Brás pediu, afirmando que estava em um dia ruim.
  Uma semana depois Lobo foi nomeado para a presidência de um província no Norte, e dessa vez a publicação saiu no jornal no dia 31. O casal se despediu sem choro e sem desespero.
  Inicialmente Brás agiu como um viúvo, ficando em casa sem fazer nada. Conforme o tempo passou ele foi voltando gradualmente a sua vida pessoal. Nesse período a filha de Cotrim nasce, Venância, e o seu tio Cônego faleceu.
  Sabina “arranjou” todo o casamento de Brás e Nhá Lobo sem que ele percebesse.J á Quincas apresentava sua teoria humanista, querendo que ele se convertesse ao humanitismo. O Humanitismo prega que o mais importante é o seu nascimento (sem ele você não estaria vivendo) e logo, você mesmo. A dor é uma ilusão. Borba leu para Brás seus volumes humanitistas, fascinando-o.
  Havia três forças que agiam sobre Brás naquele momento: Sabina,Quincas Borba e uma vontade de agitar (a multidão o atraía).
  Sabina exigia que Brás se casasse. Ele aceitou já que naquele momento sentia necessidade de fazer algo. O casal começou a sair na presença de Damasceno que certa vez apostou numa briga de galo, provocando vergonha na filha. Quincas apoiava o casamento.
  Sara, filha de Cotrim, faleceu, abalando muito o pai. Eulália morreu de febre amarela aos 19 anos. Damasceno, um tempo depois, confessou que se chateou tanto com a morte da filha porque convidou 80 pessoas para o enterro e só comparecerão 12.
  Mais uma vez Machado de Assis livra Brás de uma colisão. Se ele se casasse passaria a viver com pessoas falsas e interesseiras.
  Lobo e Virgília voltaram. Brás a encontrou em um baile, estava magnífica, enquanto ele já tinha 50 anos. Quincas disse que ele tinha que aceitar a lei do tempo e aproveitar mais a vida. Brás concordou e decidiu se envolver mais na política.
  Em seu primeiro discurso Brás sugeriu diminuir o uso da barretina (chapéu de couro usado por militares) usando, entre outros argumentos, que a barretina era anti-higiênica. Com isso ganhou muitos oposicionistas e logo perdeu sua cadeira de deputado.
  Se entristeceu. Quincas então deu a ideia dele abrir um jornal, dizendo que ele não poderia parar de lutar. ”Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal”.
  Brás recebeu uma carta de Virgília afirmando que D. Plácida estava doente e precisava de ajuda. Pensou em não ajudá-la, afinal já havia dado a ela 5 contos de réis. Mas ajudou, por consideração à Virgília.
  Levou-a para um hospital no qual amanheceu morta uma semana depois “Saiu da vida as escondidas, tal como entrara“. D. Plácida havia se casado com um homem, o qual fugiu com seu dinheiro, por isso ela estava pobre de novo.
  Brás lançou um jornal oposicionista ao governo, o qual apresentava uma política humanista de Borbas, sendo que Cotrim e Sabina foram contra o jornal. Cotrim publicou em outros jornais que não concordava com as atitudes de Brás. Esse não acreditou no que lia, considerando a falta de apoio do cunhado um problema insolúvel.
  Depois de 6 meses e jornal faliu. Lobo morreu e Brás sentiu prazer, pois se isso não acontecesse logo Lobo se tornaria ministro. Brás foi ao enterro no qual Virgília se mostrou muito abalada. Ela o traiu com sinceridade e agora chorava sua morte com sinceridade.
  Brás reconciliou-se com Cotrim mesmo sem entender o porquê de sua declaração nos jornais. Foi convidado por ele para participar da Ordem Terceira, uma organização humanitária. Essa foi a fase mais brilhante de sua vida.
  Após 4 anos, entediado, saiu da ordem. Houve dois encontros importantes nesse período: Brás viu Eugênia, em um cortiço, miserável e ainda manca e viu no hospital da Ordem Marcela, a qual morreu, feia e magra.
  Quincas foi para MG e voltou parecendo um mendigo, como antes. Mas seu olhar estava diferente, era um demente. Quincas disse a Brás que havia queimado todo o seu manuscrito humanista e que iria reescrevê-lo. Tempos depois morreu em sua casa, ainda afirmando que a dor era uma ilusão.
  Brás logo adoeceu e morreu, levando consigo a ideia emplasto, que iria curar a humanidade da hipocondria. Não alcançou a celebridade do emplasto, não foi ministro, nem casou. O que foi bom é que ele nunca precisou trabalhar, sempre teve dinheiro.
Assim sendo, só não saiu “quite” com a vida porque não teve filhos. "Não tive filhos, não transmite a nenhuma criatura o legado de nossa miséria".

Texto de Graziella Toffolo Luiz

Resumo Sentimento do Mundo


O resumo de Sentimento do Mundo é o único que iremos copiar, pois é o único livro de poemas e nós não sabemos interpretar.  Portanto, pesquisamos um resumo completo, que possui todos os poemas e a explicação embaixo. Aah, lembrando que até quinta, no máximo, todos os resumos já estarão no blog para o pessoal que vai prestar Fuvest! O link de Sentimento do Mundo está ai embaixo J

http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/s/sentimento_do_mundo_livro

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Simbolismo a Modernismo - Episódio 3

O 3º vídeo já está disponível!Nele explicamos Simbolismo, Parnasianismo e Modernismo!Assistam e qualquer dúvida comentem :) http://www.youtube.com/watch?v=0L9DPe2Aris

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Vídeo Episódio 2

O 2º vídeo já está disponível!Nele explicamos, de maneira divertida, literatura de informação, neoclassicismo(ou arcadismo), romantismo e realismo-naturalismo!Aprendam se divertindo :D  http://www.youtube.com/watch?v=6zEKrv4zRwQ&feature=plcp

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Resumo de "Capitães da Areia"


RESUMO “CAPITÃES DA AREIA” (1937) - JORGE AMADO


AUTOR E OBRA
  Jorge Amado passou a infância em Ilhéus até mudar-se para Salvador.Os exemplares da primeira edição de Capitães da Areia(1937) foram aprendidos pelo Estado Novo(1937-1945) e o autor foi obrigado a viver no exílio entre 1941 e 1944.
  Quando voltou se tornou deputado do Partido Comunista Brasileiro.Dois anos depois seu partido foi declarado ilegal e ele seguiu para um novo exílio, voltando só em 1952.Em 1955 deixa a política para se dedicar integralmente à literatura.


TEMPO E ESPAÇO
  A história se passa na cidade de Salvador, capital da Bahia, entre 1918 e 1935, aproximadamente.Grande parte da história se passa no trapiche, um lugar que não era público nem privado, mas um espaço degradado e marginal, de que os Capitães da Areia tomam posse.O trapiche era infestado por ratos, indiciando a sub-humanidade a que os meninos do bando são submetidos.
  A cronologia não é completamente linear.Em alguns momentos a narrativa apresenta momentos ocorridos antes do nascimento de Pedro Bala, por meio de flashes do passado.As vezes também ocorre flashes do futuro.


CARACTERÍSTICAS DA OBRA
*É uma obra neorrealista regionalista

*Linguagem popular -> as vezes acontece repetição de palavras e ênfase de hipérboles

*Está presente na obra digressões, como quando é contado a origem do sobretudo que Professor usava e o que ele significará em seu futuro, quando ele for um famoso pintor

*Nas reportagens e nas cartas de certas autoridades a linguagem ostenta uma pompa retórica.O contraste entre esses textos e o resto do livro causa um efeito crítico e sutilmente humorístico

*O narrador é em terceira pessoa e onisciente.Possuía uma linguagem culta, mas era diferente daquela apresentada nas reportagens.Assume a defesa na transformação revolucionária da sociedade, demonizando as classes superiores e idealizando romanticamente a personalidade e a ação do proletariado marginal

*O enredo possuí dois tipos de ações:
   - as circunstanciais(episódios): encerram em si mesmas, sem fazer avançar a narrativa, caracterizando a vida coletiva dos meninos abandonados(evidencia a cidade dividida entre ricos e pobres);
   - as dinâmicas(peripécias): momentos que modificam o modo de agir das personagens


PERSONAGENS
João Grande: integrante dos Capitães da Areia, negro, extremamente bondoso e protetor, era o mais alto e mais forte do grupo.Durante a noite dormia na entrada, vigiando o trapiche.Fugiu de casa quando seu pai morreu, foi quando achou o grupo.

Querido-de-Deus: pescador, ótimo capoeirista, era amigo dos Capitães da Areia, dando aula de capoeira para alguns dos integrantes e ajudando eles em alguns assaltos.

João José, o Professor: integrante dos Capitães da Areia, adorava ler(roubava livros), muito criativo e um ótimo desenhista(possuía o dom)."Pedro Bala nada resolvia sem o consultar várias vezes, foi a imaginação do Professor que criou os melhores planos de roubo."

Pedro Bala: protagonista, chefe dos Capitães da Areia, loiro, possuía uma cicatriz no rosto(feita pelo ex-chefe do grupo, Raimundo), inteligente, corajoso, ágil, leal.Tinha um jeito natural para liderar, um senso de justiça: "trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe".Conhecia Salvador inteira.

Gato: membro dos Capitães da Areia, era ágil, elegante e bem-arrumado(acreditava que havia nascido para uma vida rica).Antes de entrar no Capitães da Areia participava de um outro grupo de abandonados.

Pirulito: integrante dos Capitães da Areia, magro, alto, extremamente religioso.Queria ser sacerdote.

Sem-Pernas: participava dos Capitães da Areia, tinha uma voz estrídula e fanhosa, coxo.Era o espião do grupo: analisava o lugar antes do grupo saquear, uma vez que possuía a habilidade de se fingir de "bom menino".Tirava sarro dos outros meninos do grupo(fama de malvado).Fazia isso para se esconder de sua própria desgraça.No fundo sentia uma enorme carência de afeto, o que alimentava seu ódio e vingança.

Boa-Vida: integrante dos Capitães da Areia, mulato feio, bissexual(não conseguia namorar mulheres pela sua feiúra), preguiçoso, desleixado, vagabundo.

Padre José Pedro: padre bondoso, altruísta, simples, esforçado, amigo dos Capitães da Areia.

Dalva: bela prostituta com a qual Gato saia, 35 anos.

Barandão: integrante dos Capitães da Areia, negro, corajoso, bissexual.

Almiro: membro dos Capitães da Areia, gordo, preguiçoso, bissexual.

Volta-Seca: participava dos Capitães da Areia, quieto, afilhado de Lampião(pelo qual possuía extrema admiração), perturbado(se imagina matando outras pessoas).

Nhozinho França: bêbado, dono de um velho carrossel.

Margarida: velha, magra, rica e preconceituosa.Odiava os Capitães da Areia.

João de Adão: negro, forte, líder dos estivadores(pessoas que trabalhavam na embarcação/desembarcação dos navios), amigo dos Capitães da Areia, dono de um armazém, possuía uma consciência e militância política.

Raimundo “Loiro”: pai de Pedro Bala, estivador, valente, altruísta, muito respeitado, assassinado por policiais enquanto discursava em uma greve.

Don’Aninha: magra, alta, negra, mãe de santo, amiga dos Capitães da Areia.Auxiliava os necessitados com seus conhecimentos de medicina popular e amparava espiritualmente as pessoas.

Gringo: participava dos Capitães da Areia, estrangeiro, falava enrolado, o mais zoado pelo Sem-Pernas.

Dora: loira, bonita, perdeu os pais pela varíola, extremamente valente, adorada pelos Capitães da Areia.Se apaixonou por Pedro Bala e foi correspondida.Possuía um irmão: Zé Fuinha.

Alberto: amigos dos Capitães da Areia, só aparece no final da narrativa.Era ativista político de esquerda e ajudava os grevistas.Influencia muito a vida de Pedro Bala.


SÍNTESE
O livro se inicia com uma reportagem e várias cartas sobre ela publicadas no "Jornal da Tarde.

Reportagem
Denuncia mais uma assalto dos Capitães da Areia, um grupo de aproximadamente 100 crianças de 8 a 16 anos, dessa vez em um casarão de uma bairro rico.Um jardineiro, que tentou impedir os meninos, foi ferido.Testemunhas afirmaram que o chefe do grupo possuía uma cicatriz no rosto.O jornal pede a ação do chefe de polícia e do juizado de menores em relação ao grupo.

Carta do secretário do chefe de polícia a redação
Deixou claro que a polícia não pode e nem poderia tomar nenhuma ação, devido aos assaltantes possuírem menor idade, sem a autorização do juizado de menores.A carta foi publicada no jornal com destaque.

Carta do juiz de menores a redação
Afirmava que o juizado de menores não tinha a função de capturar as crianças, tal função era da polícia.Seu trabalho era apenas designar o local onde abrigá-las.A carta foi publicada no jornal com destaque.

Carta de uma mãe
Denunciava a precariedade do reformatório(aonde as crianças capturadas ficavam).As crianças viviam apanhando, o diretor era bêbado.Disse que o Padre José Pedro poderia comprovar tais afirmações.Ela preferia seu filho no grupo Capitães da Areia do que novamente naquele reformatório.Pedia que o redator visitasse o reformatório de surpresa.A carta foi publicada no jornal sem destaque.

Carta do Padre José Pedro
Publicada sem destaque, confirmava o que a mãe havia dito.

Carta do diretor do reformatório
Publicada no jornal com destaque, afirmava que as acusações sobre ele e o reformatório eram improcedentes e caluniosas.Pedia que o redator fosse visitar o reformatório, mas de segunda-feira, apenas.Subentende-se que o “jornal” acreditou no diretor.

  Alguns meninos do Capitães da Areia dormiam em um precário trapiche: era o esconderijo do grupo.Certa vez Raimundo, que ainda era o chefe, cortou o rosto de Pedro Bala em uma discussão.Pedro para se vingar brigou com ele, ganhou a briga e a liderança do grupo.Sob a nova liderança o grupo se organiza melhor e ganha fama na cidade.
  Os meninos do Capitães da Areia eram “vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos (...) fumando pontas de cigarro, eram na verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.”A cidade os temia, a polícia os perseguia, mas mesmo assim os Capitães da Areia tinham a amizade de alguns adultos. Desce cedo os meninos do grupo possuíam relações sexuais.Só não eram homens completos por causa da idade.
  Em uma noite no trapiche Pedro chama Professor, João Grande e Sem-Pernas para planejar um assalto pois Gonzales, um gringo que sempre “negociava” com o grupo, precisava de chapéus novos e de felho.Iria participar desse roubo Pirulito e Sem-Pernas, dentre outros meninos.
  Sem-Pernas, após a reunião, se aproximou de Pirulito, que estava rezando, para tirar-lhe sarro.Conquanto parou e ficou olhando.Sentia uma espécie de inveja e desespero.Não queria mais ter que rir dos outros para se sentir bem, queria se livrar de sua angústia.
  Sem-Pernas nunca teve família, vivia pelas ruas, maltratado principalmente pelo seus defeitos físicos.Certa noite foi preso e os soldados bêbados o fizeram correr(era difícil por ser coxo), quando ele parava o chicoteavam nas costas.As cicatrizes externas saíram, contudo as internas permaneceram.Isso o atormentava até hoje.
  Seu coração era cheio de ódio.Foi retirado da rua pelo Professor.Sabia fingir como ninguém, por isso era o espião do grupo.Por tudo isso sentia desprezo e raiva de Pirulito, que através da reza conseguia ir para um mundo sem sofrimento que conheceu conversando com o Padre José Pedro.
  Boa-Vida trouxe Gato para o grupo com intenções amorosas.Gato recusou uma tentativa de relação sexual e permaneceu no grupo.Por um tempo foram inimigos, mas depois voltaram a se falar e quando Gato se cansava de alguma menina “passava” para ele.
  Gato andava pelas ruas das prostitutas quando conheceu Dalva e a desejou imediatamente.Toda noite ele ficava olhando-a, mas ela não reparava, pois tinha um amante.Dalva só reparou no menino quando seu amante a abandonou e a partir daí começaram a se relacionar.Por isso Gato nunca dormia no trapiche: sempre estava na casa de Dalva(ela ficava com ele depois de atender seus "clientes").
  Ainda na mesma noite Gato convidou Sem-Pernas para ir na rua das prostitutas.Sem-Pernas recusou e ficou observando as crianças que ali dormiam.Todas que ali estavam não tinham família, contudo possuíam uma grande liberdade."E achava que a alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida."
 Continuava observando.Barandão e Almiro se enamoravam na praia.Cada um deles procuravam uma forma de carinho: o Professor nos livros, Pirulito nas rezas, Gato na cama de uma prostituta.Pensou em ferir alguém, mas desistiu.
  O grupo possuía algumas regras, como não roubar as coisas de algum integrante.
  Volta Seca entrou no trapiche e pediu para o professor ler uma reportagem que tinha a foto de Lampião.Essa dizia que Lampião havia matado 8 pessoas e saqueado os cofres da prefeitura.Volta Seca se alegrou muito com a notícia, pois ele admirava muito seu padrinho.
  Na tarde seguinte Gato, Pedro e João Grande tiveram aula de capoeira com Querido-de-Deus.Eles esperavam um sujeito para fechar negócio, mas ele não apareceu.Foram para um bar e começaram a jogar baralho(com apostas).Gato estava trapaceando, mas os dois marinheiros que jogavam junto com eles não repararam e o grupo conseguiu "faturar".Os meninos ainda esperavam o homem, quando um intermediário apareceu e remarcou o encontro para madrugada.
  Os meninos, de madrugada, foram a pé se encontrar com o tal homem em uma bairro distante.Chegando lá o homem pediu que eles entrassem.No início ficou indeciso em deixar eles fazerem o “negócio”, afinal eram crianças.Eles teriam que ir a uma chácara próxima, trocar um embrulho por outro parecido que estaria ou no quarto ou com o empregado.Se estivesse com o empregado não teria jeito, pois o homem não queria que ninguém percebesse que o embrulho havia sido trocado.
  Recebendo uma parte do pagamento os meninos partirão para a missão.Chegando lá viram no 2º andar uma mulher aflita.Muito espertos, logo entenderam que no embrulho havia cartas e que ela traía o marido com o homem.O empregado havia descoberto e por isso poderia estar com o embrulho, chantageando a mulher.O embrulho estava mesmo com o empregado, mas mesmo assim Pedro, muito esperto, trocou-os sem que o empregado percebesse e fugiu, junto com os outros.
  Chegou no subúrbio da Bahia um velho carrossel, no qual já havia andado Lampião e o seu grupo quando ele estava no interior nordestino.Nhozinho contou esse acontecimento a Sem-Pernas e Volta Seca(o qual ficou excitadíssimo).Ambos iriam ajudar no serviço do carrossel(nunca aderiram uma ideia com tanto entusiasmo) enquanto esse permanecesse na cidade.
  Quando os dois chegaram ao trapiche e avisaram que iam trabalhar no carrossel todos ficaram fascinados e invejaram eles.Em uma noite, antes do carrossel abrir, todos os meninos dos Capitães da Areia foram vê-lo.Volta Seca deu corda na pianola e iniciou-se uma música de valsa antiga.Todos abriram um sorriso, se sentindo os donos da cidade, amando uns aos outros.Nhozinho França convidou-os para que viessem andar uma noite no carrossel de graça, para a alegria de todos.
  Na noite de sábado, no intervalo do trabalho, Nhozinho deixou Sem-Pernas e Volta Seca andar no carrossel.Volta Seca foi no cavalo que Lampião andou, imaginado que fosse cangaceiro, matando todos(na sua imaginação) que estavam no carrossel.Já Sem-Pernas foi calado, imaginando que naquele momento ele era igual aos outros meninos que andavam de carrossel, amado e com uma família.Era uma sensação ótima."É como se corresse sobre o mar para as estrelas na mais maravilhosa viagem do mundo.Uma viagem que o Professor nunca leu ou inventou."
  Boa-Vida foi o intermédio que Padre vieira “fez” para se tornar amigo dos Capitães da Areia.Boa-Vida não gostava de nenhum tipo de trabalho, vivia vagando pela cidade e quando fazia tempo que não “colaborava” com o grupo, roubava algo e dava a Pedro Bala.Era tão preguiçoso que andava em trapos e só arranjava outras roupas quando as que ele vestia realmente não davam mais para serem usadas.
  Certa vez entrou na em uma igreja onde o padre José estava(para roubar um objeto) e eles se conheceram.Aos poucos o padre foi se aproximando do grupo, mas só viu mudanças no Pirulito, sendo o Sem-Pernas o menino com o qual ele teve maior dificuldade de se aproximar.
   Antes de ser padre o Padre José era um operário.Entrou no seminário pois seu patrão disse ao bispo que ia pagar os estudos de “alguém que quisesse estudar para padre.”(o Padre José ouvira tal promessa e declarou ser interessado na frente do bispo, deixando o patrão “sem escolha”).
  Mas após dois anos o patrão deixou de pagar seus estudos e o Padre José teve que pagar seu seminário, trabalhando dentro dele e sendo muito discriminado pelos colegas.Sempre tirava notas baixas(nunca fora muito inteligente), o que era recompensado pelo seu grande desempenho e sua devoção por ser padre.
  Depois de se ordenar o padre ficou esperando ser enviado para uma paróquia.Enquanto isso, ele se aproxima das crianças abandonadas.Frequentava o reformatório(aonde havia muitas crianças dos Capitães da Areia), mas quando se declarou contra os castigos corporais, como deixar as crianças sem comida por dias seguidos, ele foi proibido de entrar lá e o diretor do reformatório se queixou dele com o Arcebispado.
  Apesar de tudo, o Padre José não desistiu e começou a se aproximar dos Capitães da Areia.Sabia que o que mais faltava as crianças abandonadas era o carinho.Seu jeito bondoso, de se preocupar com os necessitados acima de tudo, causou atritos com seus superiores da Igreja,  com o diretor do reformatório, com policiais(pois os Capitães da Areia eram procurados) e com as beatas que freqüentavam suas missas.
  No início pensava em oferecer aos meninos dos Capitães da Areia que morassem com as beatas que frequentavam sua missa, mas logo percebeu que isso faria os meninos perderem sua confiança, uma vez que “a liberdade era o sentimento mais arraigado nos corações dos Capitães da Areia”.O Padre tentava ajudar os meninos, mais de todos os lados encontrava barreiras.Nem por isso desistia.
  O Padre José decidiu, com a chegada do carrossel na cidade, retirar(apesar de “errado”) um dinheiro da igreja e levá-los para andar.Na tarde de domingo convidou eles, os quais não ficaram muito animados, para grande surpresa do padre.O Professor explicou que eles já haviam sido convidados pelo dono do carrossel para andar de graça, e pediu a ele que não se chateasse por negarem o convite.
  O Padre entendeu e disse que era “até melhor assim.Porque o dinheiro que eu tinha ...”.Os meninos logo perceberam que ele havia pegado o dinheiro da igreja e ficaram surpresos com isso(no bom sentido), sendo que alguns até choraram.
  Pedro, o capitão do grupo, sentiu que tinha uma “dívida” com o Padre e o convidou para ir andar com eles.O padre aceitou, afinal era uma maneira de se aproximar do grupo.Foram todos observar o carrossel, o qual estava em funcionamento.
  Margarida passa pelo local e critica o Padre José por estar andando com os ladrões do Capitães da Areia.Esse não ligou, alegando que eram apenas crianças.Os meninos do grupo só não a assaltaram pois o Padre estava ali.Anoiteceu e todas as crianças do Capitães da Areia foram andar no carrossel.Eles se esqueceram que não tinham família, nem comida, nem carinho, apenas sentiam uma felicidade extrema.
  Pedro Bala, Boa-Vida e Pirulito estavam andando no cais a espera de Querido-de-Deus, o qual estava chegando de uma viagem.Pararam um pouco no Armazém 7, estabelecimento de João de Adão, um velho estivador.
  Foi aí que João de Adão contou a Pedro Bala suas origens: Pedro era filho de Raimundo, o “Loiro”, o qual havia sido um grevista extremamente corajoso, que foi assinado por policiais quando discursava em uma greve.A mãe de Pedro Bala era rica e fugiu para se casar com Raimundo, mas morreu quando Pedro era ainda um bebê.Raimundo era companheiro de João de Adão, o qual ainda o admirava.
  Por ser filho de Loiro, João de Adão ofereceu ao garoto um lugar para morar nas docas, quando ele precisasse.Pedro ficou encantado com a história de seu pai, seus olhos brilhavam, afinal, ele era filho de um herói.Isso iniciou uma consciência política e revolucionária em Pedro Bala, além de um certo sentimento de vingar a morte do pai.
  Querido-de-Deus chegou da viagem e foi em um candomblé, junto com Boa-Vida e Pedro.Lá Ogum(Deus da religião africana) anunciava que a vingança contra os ricos chegaria.Pedro voltava para o trapiche angustiado, pensando na morte do pai e no pedido de vingança de Omulu.
  No areal avistou uma negrinha e a desejou, queria afogar a angústia que o oprimia.Depois de muito implorar(pois queria manter sua virgindade), a negrinha "cedeu".No meio do ato saiu correndo, aterrorizada.Pedro foi atrás dela e insistiu em levá-la até a sua casa.No meio do caminho, com os soluços da negrinha, não sentia mais angústia nem desejo, apenas tristeza.Quando ela já estava perto de casa, o amaldiçoou.
  Pedro se abalou com a raiva da menina e saiu correndo pelo areal.Desejava não ter conhecido a negrinha, não ter tido a conversa com o João de Adão sobre seu pai, não ter ido no candomblé.Sentia ódio dos policiais que mataram seu pai, da cidade rica do outro lado da cidade, de ser uma criança abandonada.
  Em uma noite de chuva D’Aninha visita o trapiche e pede a Pedro Bala que resgate a imagem de Ogum, a qual fora aprendida por policiais.Naquela época havia a perseguição dos praticantes da religião africana no Brasil.Pedro levou D’Aninha para sua casa, a qual foi amaldiçoando os ricos, o que aumentou a raiva de Pedro Bala.
  O Professor sempre usava um sobretudo maior que ele.Em um dia passado, no sol quente, o Professor estava na rua quando avistou um homem com um grande sobretudo e o desenhou.Mas o homem, quando viu o desenho, o chutou.
  O Professor voltava ao trapiche, sem entender o porquê daquela violência contra ele, afinal, ele havia feito uma gentileza.De repente avistou no areal o mesmo homem com o sobretudo e decidiu se vingar: cortou-lhe a mão com uma navalha e pegou o sobretudo, o qual o homem abandonou enquanto fugia desesperado.
  Futuramente, quando o Professor for um famoso pintor, em seus retratos os homens burgueses sempre estarão com grandes sobretudos que possuem mais personalidade do que eles mesmo.
  Pedro, muito astuto, em uma noite fingiu assaltar uma moça perto da delegacia onde estava o Ogum e foi preso.Lá “roubou” a imagem de Ogum sem que ninguém percebesse e quando amanheceu foi liberado, pois afirmou ao delegado que só roubou a moça porque queria uma lugar pra dormir.
  A maior conquista do Padre José para o grupo foi terminar com a pederastia(meninos mais velhos transando com meninos mais novos) e Pirulito.Pirulito era uma dos mais malvados e encrenqueiros do grupo, mas quando conheceu o amor a Deus mudou completamente.Parou de transar com as negrinhas, de brigar e só furtava quando necessário.Mas logo conheceu o “Deus-Justiça”, o “Deus-Vingança” e o desespero invadiu o seu coração(ficou confuso, amava a Deus mas o temia muito).
  Pirulito avistou em uma loja um quadro de um menino Jesus magro e nu no colo de Maria.Se apaixonou pelo quadro, mas era pecado roubar.Depois lembrou que só de pensar em cometer um pecado já era um pecado.Após muito hesitar roubou o quadro e saiu com ele agarrado no peito, sentia que agora o triste menino Jesus sorria.
  Os meninos estavam planejando assaltar um casarão onde morava um casal de idosos.Sem-Pernas então se infiltrou na casa(como já era costume), fingindo ser uma menino pobre e sem família(disse que se chamava Augusto).A senhora, chamada D. Ester, acolheu-o.Mas dessa vez foi diferente, D.Ester o tratou como o filho que perderá(esse também chamava Augusto).Nas outras casas que Sem-Pernas se infiltrou ele era maltratado e deixado de lado.
  Na hora de dormir a D. Ester beijava o menino, o que o chocava.Finalmente recebia uma carícia familiar.Sem-Pernas, extremamente indeciso entre roubar D. Ester ou continuar com ela, prolongou sua permanência no casarão.O casal o tratava muito bem, o levando para ir no cinema e para tomar sorvete.
  Mas chegou um momento em que o grupo pressionou Sem-Pernas que já demorava muito para abandonar a casa.Esse, apesar de muita dor, decidiu abandonar D. Ester e assaltá-la, afinal, se ficasse ia ser uma traição aos Capitães da Areia.Em uma manhã se despediu de D. Ester, agradecendo-a, prometendo que nunca ia esquecê-la e voltou ao trapiche.
  Naquela noite Pedro e alguns meninos invadiram a casa e roubaram algumas peças de ouro.Quando voltaram avisaram Sem-Pernas que talvez eles não reparassem que haviam sido roubados.No dia seguinte o Professor leu uma notícia para Sem-Pernas: D. Ester anunciava a perda do filho Augusto, em busca de informações.Sem-Pernas arrebentou em choros, pensando que quando descobrissem o furto o casal não ia mais gostar dele.Após isso Sem-Pernas ficou mais quieto, mais afastado do grupo, mais amargurado.
  Em uma bela manhã Pedro e o Professor foram para a “cidade alta”.Professor desenhava as pessoas que passavam na calçada com giz, e essas lhe pagavam com dinheiro(quando gostavam).Ele desenhou um elegante homem(era um poeta), o qual apreciou muito seu trabalho e lhe deu um cartão para que o Professor o procurasse.Mais tarde o Professor jogou o cartão no lixo(não acreditava em si mesmo) contra a vontade de Pedro, o qual achava que ele realmente era capaz.
  A varíola estava espalhada pela cidade.Aliás, pelos pobres, pois os ricos já estavam vacinados.Os seguidores da religião africana acreditavam que Ogum havia mandado a doença para atingir os ricos, mas Ogum não sabia da existência da vacina, então a doença acabou atingindo os pobres.Quando Ogum viu que a doença matava o seu povo, ele a suavizou, transformando a terrível “bexiga negra” em “bexiga branca”(ambas são vertentes da varíola, só que em intensidades diferentes).Havia uma lei municipal a qual previa que era obrigatório denunciar as pessoas infectadas por varíola.
  A doença afetou os Capitães da Areia, sendo o primeiro Almiro com a “bexiga branca”.Em um primeiro momento quiseram expulsá-lo, mas Pedro Bala e o Padre José chegaram e ficou decidido que o Padre arrumaria um médico para consultá-lo.Contudo o médico denunciou Almiro para a polícia, e o Padre José ficou em “maus lençóis” com os Capitães da Areia e foi chamado pelo Arcebispado.
  Um cônego repreendeu fortemente o Padre José pois já havia recebido queixas de D. Margarida, do diretor do reformatório e agora o Arcebispado havia sido procurado pela vigilância sanitária por causa dele ter escondido o caso de Almiro.O cônego o chamou de comunista e disse que sua preocupação com os Capitães da Areia era um desrespeito a Deus e a Igreja.Por fim, lhe avisou que se ele não parasse de “arranjar confusões” a Igreja tomaria medidas drásticas.
  O Padre saiu sem entender porque ajudar os pobres era uma coisa ruim.Se Jesus fazia o mesmo, porque era errado?Concluiu que seu trabalho era bom, que futuramente nem todos os meninos do Capitães da Areia seriam ladrões, com a sua ajuda eles poderiam ter uma profissão, e isso deixaria Deus feliz.
  Almiro, após a denúncia, foi levado para o Lazareto(péssimo hospital onde eram levados os pobres com varíola, ser internado lá era uma sentença de morte) e morreu.Sem-Pernas se sentiu culpado(pois num primeiro momento ele quis expulsar Almiro do grupo) e agora só conversava com o cachorro que arranjara.
  Boa-Vida foi contaminado e por decisão própria, para não contaminar seus companheiros, foi para o lazareto.O Professor tentou impedir, mas não adiantou.Um tempo depois ele voltou curado, para a surpresa de todos.Todos lhe perguntavam como era o Lazareto e Boa-Vida respondeu que era horrível, como entrar num caixão: tudo lá já estava morto.
  O Professor, admirando a atitude nobre de Boa-Vida de não contaminar o grupo, acreditava, como Querido-de-Deus afirmava, que no lugar do coração Boa-Vida tinha uma estrela.
  O surto de varíola finalmente passara, e uma das últimas a morrer foi Margarida, mãe de Dora.O pai de Dora também havia morrido pela doença e agora ela e o irmão menor, Zé Fuinha, estavam sem lugar para morar e passando fome.
  Cansada, esfomeada, com os pés queimados do asfalto e com saudade dos pais Dora ainda achou forças para tentar arranjar um emprego.Ela decidiu ir na casa de uma antiga freguesa rica de sua mãe(que lavava roupas), mas a mulher recusou seu pedido para trabalhar na casa quando Dora disse, inocentemente, que seus pais haviam morrido de varíola.E assim foi em todas as outras casas, as pessoas temiam a varíola.
  Já havia anoitecido quando o Professor e João Grande avistaram o casal de irmãos, e como sabiam o que tinha acontecido a eles, resolveram levá-los para o trapiche, assim eles teriam um lugar para passar a noite.
  Chegando lá todos os meninos avançaram para cima da Dora com o intuito de estuprá-la.João Grande e o Professor tentavam protegê-la e ela e o irmão choravam aterroriados.Pedro chegou e num primeiro momento queria também estuprá-la, mas depois mudou de ideia e como chefe do grupo ordenou que Dora não seria tocada.
  Dora e o irmão acabaram se tornando integrantes do Capitães da Areia.Ela, aos poucos, foi conquistando os meninos e se tornou a mãe deles, costurando suas roupas, dando carinho, sendo gentil e amorosa.Mas Pedro e o Professor haviam se apaixonado pela menina, a qual correspondia somente a Pedro, o via como um herói.
  Dora, apesar da resistência inicial de Pedro Bala(que no fundo gostou de sua atitude), começou a participar dos assaltos dos Capitães da Areia, pois não achava justo “comer de graça”.A menina se mostrou ágil e esperta.
  Em uma tarde Pedro sozinho brigou com um outro grupo de meninos abandonados liderado por Ezequiel por eles terem xingado Dora.Chegando no trapiche a menina cuidou dos ferimentos de Pedro e o beijou, se envergonhando depois.
  A noite surgiu com um clima romântico.Pedro e Dora deitaram no areal.Ele disse a Dora que ela era sua noiva e que um dia eles iriam se casar.Na mesma noite Pedro Bala reúne alguns dos meninos para se vingar de Ezequiel.Dora foi junto, eles lutaram e venceram, voltando para o trapiche felizes e vitoriosos.Pedro Bala e Dora voltaram para o areal, conversaram sobre coisas tolas e dormiram de mão dadas, sem terem se beijado.
    Saí uma reportagem no jornal afirmando a prisão do chefe dos Capitães da Areia.Ele e mais um grupo(incluindo uma menina) foram assaltar uma mansão.Um morador percebeu o assalto e quando entraram em uma sala os trancou.
  A polícia chegou e graças a uma manobra esperta de Pedro o grupo conseguiu fugir, restando só ele, que foi levado para a delegacia, e Dora, a qual foi levada a um orfanato.Pedro, após passagem pela delegacia, foi levado para o reformatório.Lá pessoas da imprensa junto com dois soldados da polícia e o diretor do reformatório espancaram Pedro Bala para ele denunciar o esconderijo dos Capitães da Areia.Ele não disse: era filho de um grevista, não ia dizer onde seus amigos estavam.
  De tanto apanhar desmaiou.No dia seguinte foi levado para um minúsculo quarto escuro(chamado cafua), no qual só dava para ficar sentado ou deitado de pernas encolhidas.Durante sua estadia nesse terrível lugar ele só teria direito a pouca água e feijão, que propositalmente era muito salgado e dava mais sede.Ao passar dos dias ele aprendeu a só tomar a água.Suas necessidades eram feitas no minúsculo lugar.
  Pensava.A liberdade é o bem maior do mundo.Pensava em Dora, que também estava sem liberdade.Sentia sua falta, sentia falta do seu cabelo loiro encostando em seu corpo.Queria sair dali e salvá-la do orfanato.A sede o corroía e a raiva de sua incapacidade naquele momento também.
  Um menino vai na porta da cafua e avisa Pedro que assim que sair dali os Capitães da Areia viram salvá-lo.Ele se agoniza pensando se Dora não estaria na mesma situação que ele.Perdeu a noção do tempo, delirava, estava extremamente debilitado, pensava que ia morrer.
  Depois de oito dias Pedro sai da cafua, extremamente magro e fraco.Raspam sua cabeleira loira e o colocam para trabalhar no canavial junto com os outros meninos.Pessoas violentas os vigiavam para garantir que não fugiriam.
  Os Capitães da Areia haviam deixado uma corda para Pedro no canavial.Ele a pegou e arriscadamente e levou-a para o quarto.Em uma noite a usou para fugir, sendo que o fez nu para os cães não rastrearem seu cheiro.
  No dia seguinte o Professor lê a reportagem que anunciava o fuga de Pedro e todos gargalham(era um costume dos Capitães da Areia:gargalhar), inclusive o Padre José.Os meninos resgatam Dora do orfanato(invadiram e a pegaram), a qual estava com uma febre que não cedia desde que fora capturada.
  Chegando no trapiche a febre aumentou.D’Aninha foi chamada e depois de rezar afirmou que logo a febre cederia.Os olhos de Dora estavam em paz porque ela segurava a mão de Pedro Bala, enquanto o resto do grupo estava aflito de perder a querida mãe e amiga.
  Dora pede que os meninos durmam.Eles se afastam, mas a maior parte continua acordada com medo de perdê-la.Ela avisa Pedro que se tornou mulher(havia menstruado quando estava no orfanato) e pede que ele fizesse dela sua "esposa".Ele resiste, afinal Dora estava doente, mas ela insiste e eles transam, sendo essa união uma forma de um casamento.Ela era agora sua mulher e os dois dormiram juntos, ambos em paz.
  No meio da noite Pedro acorda e nota que Dora estava gelada.Ela estava morta.Ele grita, acordando todos, e sai do trapiche para não explodir em soluços.O Professor, quando a viu morta, sentiu que não havia mais motivo para continuar nos Capitães da Areia.Pirulito trouxe o Padre José, que iniciou uma oração.
  Querido-de-Deus levou o corpo para o mar com sua saveiro.Pedro, inconformado, entra no mar e segue a embarcação até ser vencido pelo cansaço.Alguns diziam que quando pessoas corajosas morrem se tornam estrelas.Pedro começa a boiar e vê Dora indo para o céu.Não importava se os astrônomos dissessem que era apenas uma estrela cadente, para Pedro era Dora, uma menina extremamente valente e corajosa.Querido-de-Deus avistou Pedro no mar e o trouxe de volta a terra.
  O Professor, que havia mudado muito depois da morte de Dora, entrou em contato com o poeta que certa vez lhe deu um cartão e foi embora para o Rio de Janeiro pintar.Na despedida os Capitães da Areia ficaram esperançosos, com o pensamento que algum dia o Professor, através de suas pinturas, pudesse mudar a vida deles.
  Pirulito havia mudado, não roubava mais e trabalhava.Tinha uma imensa vontade de “servir” a Deus, e o Padre José conseguiu que ele entrasse para uma escola de frades.Depois de se formar começou a dar catecismo em uma igreja.Já o Padre José finalmente recebeu sua paróquia no interior nordestino, onde os cangaceiros atuavam.O Padre ficou extremamente feliz por poder ajudar os cangaceiros, que não passavam de “crianças grandes”.
  Boa-Vida se tornou um verdadeiro malandro, cantando samba durante as noites, enrolando moças, roubando quando necessário.
  Mais uma vez Sem-Pernas se infiltrou em uma casa para depois os Capitães da Areia poderem assaltar.Dessa vez a casa era de uma senhora solteira chamada Joana, a qual deixou ele ficar por desejo sexual, e não por dó.
  Nas noites ela ia procurar Sem-Pernas em seu colchão, mas não permitia a penetração pois tinha medo de ficar grávida, já que era solteira.O sexo incompleto enfurecia Sem-Pernas, que a tratava mal.Só permanecia na casa porque também tinha desejos sexuais, uma vez que não era “sortudo” no amor devido a sua perna manca.
  Sem-Pernas fugiu e logo os Capitães da Areia a assaltaram.No início ela se abalou pois não tinha mais o “amor” de Sem-Pernas, contudo quando descobriu o assalto se enfureceu.O “amor incompleto” de Joana provocou um profundo ódio em Sem-Pernas, um ódio que o impedia de dormir.
  Anos atrás, durante a alta do cacau, muitas prostitutas deixaram a Bahia e foram para Ilhéus “servir” os coronéis enriquecidos.Uma amiga de Dalva disse que lá conseguiu jóias e ela partiu para Ilhéus junto com Gato, que se tornou gigolô e jogador.
  Volta-Seca foi flagrado roubando e foi preso e espancando.Depois de liberto partiu de trem para Aracaju com o objetivo de encontrar outro grupo de meninos abandonados.Não se despediu dos Capitães da Areia pois planejava voltar.Conquanto, no meio da viagem ele encontrou o grupo do Lampião.O padrinho reconheceu seu afilhado e Volta-Seca se tornou um cangaceiro.
  Em um assalto arriscado Sem-Pernas foi perseguido por soldados e se jogou de um penhasco quando viu que iria ser pego.Preferiu morrer do que passar novamente por humilhações e constrangimentos.
 O Professor saiu no “Jornal da Tarde”, era uma famoso pintor de obras com conteúdo social.Analistas repararam que em suas obras “alegres” sempre havia uma menina loira de “bochechas febris”(Dora) e nas obras “tristes” sempre havia um homem com um grande sobretudo.Gato também apareceu no jornal, era um vigarista que vendia terras fictícias em Ilhéus.Volta-Seca foi manchete por ser um jovem menino muito violento no grupo de Lampião.
  Futuramente Volta-Seca será preso e julgado(o que também será manchete no jornal).Um especialista renomado afirmara que ele é normal, sua violência é fruto do ambiente onde ele cresceu e viveu.Contudo ninguém se interessa tanto pela matéria do especialista renomado, preferindo a apelação do promotor que afirmou que as vítimas de Volta-Seca sofreram muito.Mais uma crítica do autor a sociedade hipócrita.
  Pedro Bala se contagia com  uma greve dos bondes que acontecia na Bahia, aceita o pedido de João-de-Adão e Alberto de dispersar os “fura-greve”(pessoas pagas para irem trabalhar como se nada estivesse acontecendo) e o faz com sucesso(ele e os Capitães da Areia).
  A voz da greve  chamava Pedro Bala como a voz de Deus chamava Pirulito.Ser grevista estava no sangue de Pedro, seu destino era ajudar o povo sofrido, lutar pela liberdade.Pedro ingressou em uma organização grevista e os Capitães da Areia passaram a ser uma brigada de choque.
  Pedro foi convocado para organizar um grupo de crianças abandonadas em Aracaju, enquanto Almiro ajudaria os Capitães da Areia.Foi ao trapiche se despedir, deixando Barandão como o novo chefe.Os meninos gritavam enquanto ele partia.
  Anos depois, nos pequenos jornais que circulavam nas fábricas, havia sempre notícias de um militante, Pedro Bala, que era procurado em cinco estados por organizar greves e dirigir partidos ilegais.Certa vez foi preso.Quando conseguiu fugir os jornais anunciaram seu ato.Ao saber da notícia o rosto das pessoas(pobres) se iluminaram: “a revolução é uma pátria e uma família”.

Texto de Graziella Toffolo Luiz

Fonte:
- Capitães da Areia(1937) - Jorge Amado
- Anglo Vestibulares - Português - Literatura Fuvest/Unicamp 2012